Nos
últimos tempos tenho ouvido de vários estudantes e recém formados em
turismo, que o curso de graduação não lhe dá base para nada, que o
mercado de trabalho não está fácil, que se ganha pouco, que o
bacharel em turismo só tem a opção do subemprego, como atendente de
hotel, agência de viagem, companhia aérea e etc. Uma outra conversa,
agora essa dos professores dos cursos de turismo, é a de que os alunos
são fracos, não querem nada com nada, não lêem, não estudam, são
desinteressados, despreparados, vão às aulas apenas para conseguirem
um diploma e por isso não conseguem emprego.
Mas eu pergunto a vocês, será que o estudante de turismo está fazendo
a sua parte? Ou realmente esse é o perfil de quem estuda turismo? Será
que os cursos de turismo fazem a parte que cabe a eles, oferecendo uma
grade curricular que permite com que o aluno consiga um emprego, bons
professores, laboratório de pesquisa, banco de estágios, projetos de
extensão, investimentos em informática como em software específicos
para estatísticas, reservas de hotéis, os sistemas utilizados pelas
cias aéreas, biblioteca atualizada, visitas técnicas de qualidade,
incentivo a empresa junior e etc? Sinceramente, acho que as duas partes
tem de mudar.
Enquanto as universidades considerarem os curso de turismo como um curso
a mais, fácil de administrar, “barato” e que não necessita de
investimentos, nada mudará. Por outro lado, se os estudantes também não
mudarem sua postura e realmente começarem a encarar o turismo como uma
atividade econômica, que tem seus pontos fortes e fracos, que necessita
de profissionais bem preparados, com conteúdo teórico e conhecimento o
suficiente para empreender, criar novas oportunidades, mudar o mercado,
a situação pode continuar como está.
O MEC tem sua parcela de culpa, a aprovação desse número enorme de
novos cursos de turismo em tão pouco tempo foi uma irresponsabilidade
do governo. As universidades não estavam preparadas para a abertura
desses cursos, não possuíam e acho que ainda não possuem, professores
qualificados, as grades curriculares foram elaboradas às pressas, por
pessoas que não tem conhecimento no setor turístico, exclusivamente
para atender as exigências e os prazos do MEC. Conseqüência disso é
que mais da metade desses cursos recém-criados, não estão conseguindo
alunos o suficiente para fecharem novas turmas e as turmas que estão
nos períodos mais adiantados sofrem com o número reduzido de
matriculas. Esse fato influencia diretamente na qualidade do curso, pois
o aluno que é reprovado em uma determinada disciplina não tem como
repeti-la, pois não existem turmas para que isso ocorra. Muitas
universidades nessa situação preferem não reprovar os alunos, mesmo
que eles não apresentem o rendimento necessário, apenas para não
aumentar os prejuízos com o curso de turismo. A partir disso, o que
encontramos no mercado? Profissionais com péssima formação,
despreparados e desmotivados.
E será que a proposta de capacitação oferecida pelos cursos de
turismo atende a demanda do mercado? Esses profissionais recém formados
conseguem elaborar um projeto de consultoria turística, gerenciar uma
agência de viagens, gerenciar um hotel, uma pousada, abrir um negócio
próprio no setor de eventos, recreação, elaborar um estudo de
viabilidade, trabalhar em uma posição estratégica dentro de um órgão
público, capacitar pessoas no setor turístico? Esses alunos estão se
formando para serem o quê? Sinceramente o que esses cursos estão
fazendo com os alunos é uma crueldade. Não estou generalizando,
existem algumas boas propostas no país. Esse desanimo coletivo dos
alunos e dos recém formados não é em vão, os profissionais de
turismo não estão conseguindo encontrar um espaço, pois, na minha
opinião, esse espaço ainda é amplo demais, confuso demais e acaba
perdendo foco.
Será que a atividade turística realmente é tão abrangente como
considera a Organização Mundial de Turismo? O que poderia ser
realmente considerado turismo, como atividade econômica e qual a
parcela de atividades de outros setores agregados ao turismo, que são
conceituadas como turismo, mas que talvez sirvam apenas como argumento
para justificar a própria atividade turística? Os empresários se
aproveitaram dessa indefinição e no discurso de que o turismo poderia
ser a galinha dos ovos de ouro e a partir disso começaram a pipocar os
cursos de turismo no país nos últimos sete anos.
Essa falta de foco começa a dar resultados claros, dentre eles a própria
formação do bacharel em turismo, que não consegue se colocar no
mercado, o fechamento de cursos de turismo por falta de alunos, o número
de alunos que trancam o curso no meio o caminho só aumenta a cada ano,
o desinteresse pela atividade pelos vestibulandos, a má formação dos
professores que são bacharéis em turismo, e outros. Vocês não acham
que alguma coisa está errada? Eu tenho certeza que sim.
Autora:
Jaisa
H. Gontijo Bolson
CEATUR - Fundação Israel Pinheiro